sábado, 11 de dezembro de 2010

Uma página do Diário Poético


“Arroio, esse cantar, jovem e puro
Busca o oceano por achar
E a fala dos pinhais, marulho obscuro
É o som presente desse mar futuro
É a voz da terra ansiando pelo mar.”
D. Dinis, A Mensagem
Fernando Pessoa


Metamorfose Arroiana
Arroio, esse local mágico e genuíno onde todos procuram o mesmo: a melhor maneira de se relacionarem com a arte, com pessoas, com costumes, visões das nossas habituais formas de olhar o mundo. Cada um experimenta, toca o que os rodeia de coração aberto, ouve com a máxima atenção as conversas daqueles que o enriquecem com as palavras, sendo cada uma um tesouro a guardar preciosamente no cofrezinho de pérola. Pérola que se vai lapidando com o tempo, com as condicionantes que nos rodeiam.
No entanto, tudo isto é o alimento de cada um de nós, “arroianos” de alma e coração. É o tom da lagarta pequena que através da metamorfose da vida, vai sonhando cada vez mais alto e ansiando sempre por mais e mais pelo pouco muito que nos é dado, neste fado que é a Arroio.

Andreia Verdugo
12º F, Nº5

O lado escrito da oralidade

  • Momento de leitura: Leitura de excertos do livro A Queda, de Albert Camus

“Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais.”

“Sem dúvida, deve ser um homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta! E também judiciosa: estamos apenas mais ou menos em todas as coisas.”

“Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, jâ não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto recente que amamos em nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

“Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. Todo o homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar é respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais favorecidos conseguem respirar. O último da escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se, sem que alguém tenha o direito de responder.”

“Ah! caro amigo, como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões. Não, isso não lhes entra na cabeça. Para que serve, então, morrer voluntariamente, sacrificar-nos à ideia que se quer dar de si mesmo? Uma vez morto, eles aproveitar-se-ão disso para atribuir ao gesto, motivos idiotas ou vulgares. Os mártires, caro amigo, têm que escolher entre serem esquecidos, ridicularizados ou usados. Quanto a ser compreendidos – isso, nunca.”

“Sobretudo, não acredite nos seus amigos, quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, aos lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão de sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar nesse caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder.”

  • Dissertação: Breve apresentação do autor do livro, do qual foi lido um excerto.

Albert Camus nasce na Argélia, licencia-se em Filosofia. Foi escritor, filósofo e jornalista, e o primeiro escritor nascido em África a ganhar o prémio Nobel de Literatura, em 1957. A sua escrita é associada ao existencialismo mas numa entrevista, em 1945, Camus recusou qualquer caracterização ideológica.
Uma espécie de viagem às vísceras da espécie humana. Um homem, que diz ser juiz - penitente, comenta com um ouvinte que se vê perplexo e arrebatado com as histórias exemplares que representam o menu desesperante das pequenas fraquezas e dos grandes crimes do Homem. "Quando não se tem carácter, é preciso recorrer a um método." Esta frase dá o tom do livro... Não é um livro agradável. Afundamo-nos num mundo do qual participamos como “voyeurs” impotentes, fascinados, indignados, não querendo aceitar o que o narrador diz. O “juiz - penitente” chama a nossa atenção para o irremediável, diverte-se com a sua própria decadência e lança as mais odiosas suspeitas sobre a condição humana – com as quais, acabamos concordando.
Jean-Baptiste é o prepotente, o corrupto e cínico que há em todos nós (ou não haveria tanta corrupção e cinismo no mundo). Até uma certa altura, ele estava convencido que agia humanitariamente, que era um homem exemplar, bem-sucedido com as mulheres, intelectualmente brilhante, profissionalmente admirado, etc.

Um dia, um incidente deu-lhe a consciência da sua pequenez e do mal-estar irremediável do Mundo: ao passar por uma ponte, viu uma mulher, cuja intenção era óbvia, mas ele ignorou-a, até ouvir um grito. Não se voltou para salvá-la: a noite estava demasiado fria e também não se queria molhar.
A partir daí, o livro é o desabafo de alguém que não consegue escapar à sua consciência nem da culpa do Mundo, afundando-se numa auto-degradação lúcida, que só faz corroborar tudo de horrível que pensa de si mesmo e dos homens.
  • Improvisação: O Corpo Interior

O corpo interior é algo que é inerente a cada um de nós, sem forma adequada ou padrão estilizado.
É uma imagem que se vai desenhando com o tempo: algumas colagens de experiências com relevo dos desgostos e o toque de cor das vitórias. É algo que desenhamos até perecermos.
São estes os elementos que nos constroem, e por isso são os que nos definem.
E é este que perdura.

Andreia Verdugo, 12º F

O Túnel



“Com duas mãos --o Acto e o Destino--
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

Mar Português – “Ocidente
A Mensagem – Fernando Pessoa


(foto Andreia)
Por entre as rochas, o perigo
Por entre a penumbra, a ousadia
Fosse o caminho a descoberta
Que o Português desvendaria

O túnel que tiveste de percorrer
Abriu a porta para o céu
Sendo o encoberto a razão
Foste tu que o mereceu

A luz, que ao fundo se avista
Parece pequena e melindrosa
Não fosse o lusitano iluminado
Pela coragem grandiosa.




Andreia Verdugo
12º F, Nº 5

Diário de Júpiter

Teste de Português: Composição
Tema 1

Sempre dei a mão aos lusitanos que conheci.
Não eram apenas mais uns, muito menos meros marinheiros. Eram lutadores da sua pátria e da sua própria essência, eram homens ferozes e do progresso.
Construíram e fizeram história a partir dos seus pés, mãos, espadas e navios. Enquadravam-se numa sociedade de glória. Para além de serem Portugueses, eram Portugal, no seu mais alto nível, no seu auge.
Hoje desmembraram-se, perderam as raízes. Resta apenas o caule da flor que os verdadeiros lusitanos plantaram, regaram e estimaram.
Neste momento esse caule é tudo e nada. É tudo, pois é tudo o que têm e que lhes resta, é um simples nada pois decidiram auto-destruir a sua própria essência e fragrância.
Se Hoje os ajudava a chegar à Índia? Não. Já que te destruíste sozinho, levanta-te sozinho. Não vou regar algo que não quer ser regado e recuso-me a colocar ao sol algo que não quer florescer.
É caso para dizer, cresce Portugal!


Ana Sofia Cabrita, nº3, 12ºD

Biblioteca digital Fernando Pessoa

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/index.htm

A parte escrita da oralidade


 “7 de Julho
Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam os meus pensamentos em ti, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho é-me possível, ou inteiramente contigo, ou completamente sem ti. Quero ir bem longe até que possa voar para os teus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar a minha alma ao reino dos espíritos envolta contigo. Tu concordarás comigo, tanto mais que conheces a minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca… Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim?
Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Tu, amor, tens-me feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo que preciso de uma certeza na minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso faz-me  pensar que tu receberás a carta em seguida.
Fica tranquila. Contemplando com confiança a nossa vida, alcançaremos o nosso objectivo de vivermos juntos. Fica tranquila, queiras-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em ti… em ti… em ti, minha vida… meu tudo! Adeus… queiras-me sempre! Não duvides jamais do fiel coração de teu enamorado Ludwig.
Eternamente teu,
eternamente minha,
eternamente nossos.”

Ludwig van Beethoven (Compositor Erudito Alemão, 1770—1827)


     Esta carta foi encontrada na secretária de Beethoven, juntamente com o seu testamento, depois da sua morte. As cartas não tinham qualquer identificação de destinatário, nem local, estavam apenas dirigidas à “Minha Amada Imortal”.
    Sempre houve várias especulações em volta deste mistério, porém, mais tarde veio a saber-se a identidade da mulher misteriosa, ou pelo menos, é esta a versão mais lógica e aceitável.
Chamava-se Antonie (Von Birkenstock) Brentano. Era casada e tinha quatro filhos. Mudou-se para Viena, por causa de negócios que o seu marido possuía lá, e foi através de sua cunhada que então eles se conheceram.
Ela era uma mulher muito doente, e consta que Beethoven a visitava muitas vezes e tocava piano para ela. Eles mantinham um romance secreto. Pensa-se que se encontravam sempre no mesmo local, a uma determinada hora.
Passados dois anos, Antonie parte de Viena e desde então eles nunca mais se viram. E as cartas que lhe eram destinadas nunca lhe foram entregues. Beethoven amou-a durante toda a sua vida.
Inspirado e baseado nestas cartas, foi escrito um romance “Minha Amada Imortal” e posteriormente, foi feito um filme com o mesmo nome.

Segredo
Segredo eu
No mais secreto lugar
Um tal segredo
Que não posso revelar.

Segredo obscuro será esse?
Talvez algo vulgar,
Algo sem interesse...
Porque desperta tamanho
Desejo em partilhar?

Segredo eu
No mais secreto lugar
Que esse obscuro segredo
Jamais  irei revelar.

Irina Ivanenco 12ºF, Nº13

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Treino de Oralidade:

Excerto do texto que eu li, trata-se duma passagem do principio do livro Romance Incompleto, do meu tio-bisavô que acho que retrata muito bem a situação tanto do protagonista como o meu tio-bisavô.

Era meio dia e o sol caía a pino. O gado estendido no chão, á sombra dos ervideiros, ruminava o pasto que havia devorado antes daquela hora ardente. Um pouco afastado, encostado ao bornal, encoberto por uma moita, o pastor passava o ócio, lendo soletradamente um livro velho, cujas folhas em alguns capítulos, com o tempo e o correr de mãos, haviam desaparecido; pois este já fora usado por outros pastores que ainda o menos o haviam compreendido. Manuel, porém, meditava sempre em todas as palavras, embora em muito custo abrangidas. Por fim, percebeu que se tratava da vida de um pastor como ele, que um dia fugira para a cidade e achara fortuna.
O primeiro capitulo do livro estava completo e, pela descrição do autor, Manuel julgou-se em condição de imitar o herói do romance. O processo do enredo era complicado, mas o pastor, mas o pastor, por cuidadoso, lia e relia as frases para melhor se inteirar do assunto. Ele tinha quinze anos, e desde pequenino que guardava o gado, única ocupação que lhe era acessível. As poucas letras que aprendera, fora à custa da grande força de vontade, pois, desde muito novo, por instinto ou por curiosidade de inexperiente, o seu sonho era emigrar.

Comentário:
Este livro é incrível, para mim é absolutamete incrível. É a prova viva de como um homem (o meu tio-bisavô) através da vontade e do esforço, consegue passar de um pastor de rebanhos a um escritor de livros, ou seja, consegue instruir-se, sem recorrer à escola, e passar de alguém de pouca cultura e analfabeto a um escritor, que é considerada um posição ocupada por pessoas bem instruídas e letradas.
Este excerto permite resumir quase toda a história, trata-se de um pastor (como o meu tio-bisavô) que, através de um livro que retrata um pastor na mesma situação dele, decide ir para a cidade e achar fortuna, como o personagem do conto). Só esta parte, está escrita de forma genial: o livro fala duma pessoa como o meu tio-bisavô que procura fortuna após ter lido um livro sobre um pastor na mesma situação dele que a achou. Temos portanto a mesma pessoa em períodos e dimensões diferentes: o meu tio-bisavô que era o escritor deste livro enquanto procurava fortuna (o pastor do presente), o personagem da história que está a aprender a ler um livro, quem sabe este mesmo que o meu tio-bisavo escreveu, e sonha em emigrar e procurar fortuna (o pastor e meu tio-bisavo do passado) e o personagem do livro que o personagem do livro do meu tio-bisavo está a ler, que era um pastor que tinha fugido para a cidade e achado fortuna (o pastor e meu tio-bisavo do futuro, agora passado) Um texto tão paradoxal como este (como pode o personagem do livro ler um livro que falava sobre ele e, provavelmente escrito por ele próprio no futuro, enquanto o meu tio-bisavô ainda estava a escrevê-lo), uma situação tão extrema de "teatro dentro do teatro".

Tema de improviso: Limites

Os limites são a linha que marca o máximo da capacidade de qualquer coisa. O limite da força, da velocidade, da inteligência, tudo tem um nível que não pode ser ultrapassado e é esse nível que nos permite ver o quanto limitados e condicionados estamos, pois é esse nível que nos condiciona.
Eu não concordo com isso, os limites existem para serem ultrapassados, são esses máximos que nos levam a querer ser sempre melhores e a evoluir além das nossas possibilidades. Eu acredito que, através do esforço e da vontade, podemos ser melhores do que somos e ultrapassarmo-nos a nós mesmos, é o que nos torna imperfeitos e nos permite, portanto, avançar sempre em direcção à perfeição. Tenho de acreditar, porque se isto não for verdade, qual é o propósito do humano? A humanidade já não é um bando de homens das cavernas ou um bando de refinados com uma folha a tapar as zonas intimas (dependendo da religião); evoluimos e, tal como o meu tio-bisavô que conseguiu superar as suas limitações de analfabeto, até ao nivel de um escritor letrado. podemos sempre chegar mais longe.

André, 12 D