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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crítica à peça de teatro: Felizmente há Luar, de Luís de Sttau Monteiro

Cr
A peça de teatro adaptada pelo grupo A Barraca, a partir do texto de Sttau Monteiro, está repleta do típico teatro Brechtiano, característica aliás, deste grupo de teatro. Isto porque, para além de se ter contado a história do livro de Sttau Monteiro, os actores através do seu modo de representação tentaram captar e fazer passar também os sentimentos implícitos na peça. Este tipo de acção dos actores, não teria sido conseguida caso estes seguissem as regras cénicas clássicas que já advêm da antiguidade Greco-Romana. Como bem foi explicado na pequena introdução feita de modo a entender-se o contexto histórico, político e social da época onde se passa a acção da peça, Portugal no início do século XIX, após as invasões Francesas e os momentos de revoltas liberais que começavam a despontar por todo o país.
Outro aspecto da introdução feita por Maria do céu Guerra, a que dou um ponto positivo na minha crítica, é o de ter estabelecido uma ponte entre o tempo histórico do texto e o tempo histórico em que Sttau Monteiro escreve esta história, no Estado Novo. Esta comparação, ao ser feita, para os espectadores mais atentos, permite perceber que o tipo de sociedade e de mentalidades durante mais ou menos 100 anos não mudaram muito, o que subentende que Sttau Monteiro, ao escrever este texto, tivesse também a fazer uma crítica negativa à sociedade Portuguesa que ficava sempre inactiva perante as adversidades.
O espectáculo em si, para além do tipo de representação Brechtiana que já referi, deixa também entender ao longo da peça que existia um fio condutor que ligava as diversas cenas existentes, como efeitos de luz, ou objectos que indicavam que a cena já não se passava num determinado local da cidade de Lisboa mas sim noutro, como por exemplo um bidon que servia de aquecimento para os sem abrigo da cidade de Lisboa, e que auxiliado pelos efeitos de sonoplastia e luminotecnia, servia de elemento para a mudança de cena ou de espaço de acção.
A história em si entende-se perfeitamente, conseguindo-se perceber as diversas mudanças de personagens feitas pelo mesmo actor. Portanto, gostei da representação dos actores. Mesmo os monólogos, por vezes extensos, feitos por algumas personagens, embora tivessem o aspecto negativo de serem por vezes longos de mais, pois caso não sejam bem feitos podem tornar-se desinteressantes e pouco cativantes, conseguiram cativar a audiência, e muito mais, por vezes vi pelos olhares dos espectadores, que os actores tinham conseguido para além de passar a mensagem, interagir psicologicamente com as pessoas.
Os cenários, esteticamente simples, eram originais. Isto porque ao longo da peça o cenário manteve-se sempre igual, mas o facto de ter em si vários elementos distintos que interligavam as cenas do teatro fez com que o modo como o cenário fora feito fizesse sentido e que houvesse lógica na sua exposição no palco.
Alguns elementos do cenário, só por si, não tinham uma beleza por aí além, mas ao serem incorporados na cena com os actores a servirem-se desses objectos, fez com que as cenas se tornassem belas e com significado.
A luz neste espectáculo, na minha opinião, teve um papel fundamental, pois conseguiu juntar ou afastar as personagens do momento em que estavam. Para além de conseguir criar bons momentos cénicos, também contribuiu para um melhor entendimento da peça.
No geral, a meu ver, a adaptação de texto de teatro Felizmente há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, pelo grupo de teatro A Barraca, foi bem conseguida, cativando a minha atenção e compreensão por todos os elementos apresentados anteriormente.

Vasco Custódio 

domingo, 13 de março de 2011

Crítica à peça FELIZMENTE HÁ LUAR


Luís de Sttau Monteiro. Felizmente Há Luar. A BARRACA.
Encenação de Hélder Costa.
Relação de texto, contexto e encenação equilibrada, boa escolha dos cenários devido a conter objectos simples e pequenos que permitiam a boa circulação dos actores (até porque o palco era pequeno). Acho que os cenários são apropriados à época e onde se encaixa muito bem o contexto da história. Acho também que a escolha de um cenário mais simples permitiu ao público tomar mais atenção ao que se estava a passar.
 Quanto à representação, os papéis e os actores de que mais gostei foi o papel de Maria do Céu Guerra, gostei muito de a ver representar devido à força que cada palavra dela transmitia. E também o papel do Capitão Inglês, gosto sempre de ver um pouco de ironia e divertimento em personagens como a dele. No entanto, penso que todos os actores estiveram bem, que cada um desempenhou o seu papel de maneira acertada, mesmo sendo um papel pequeno (como o do rapazinho pobre que costumava espiar as conversas que se davam à sua volta).
 Sonoplastia e luminotecnia: gostei do facto de a luz focar sempre a acção mais importante que estava a decorrer e também de certos sons durante a peça (como o barulho de uma pedra a partir o vidro, que me fez dar um salto e ver se de facto se tinha partido algum vidro).
 No geral, gostei da peça, acho que foi bem adaptada,percebi a história e a mensagem, o que por vezes pode não acontecer quando as adaptações não são tão acertadas. Gostei principalmente da representação de Maria do Céu Guerra, como já referi, devido ao poder que teve no palco, sobretudo no final da peça. Contudo, o discurso da actriz antes de começar a peça, acho que foi excessivo. O que ela queria transmitir era importante, mas podia tê-lo dito em menos palavras, num discurso mais pequeno, e isso talvez fizesse com que as pessoas prestassem mais atenção, principalmente aqueles que têm menos sensibilidade para o teatro.

Erica Lopes
12ºF nº9

 "
[...]

A Sonoplastia é feita de sons simples tais como tambores, gritos de manifesto, ou som da madeira a crepitar ao final da peça, quando se  ateia a fogueira de cremação de Gomes Freire.
Ao contrário da sonoplastia, a luminotecnia é mais viva, embora a fogueira fosse um ponto de luz. O cenário estava sempre iluminado, com base nas casinhas do povo morador e a lua ao alto. A luminotecnia estava em acordo com os momentos mais tensos da peça tais como:
- quando chegava a “PIDE”, as luzes cintilavam
- quando Matilde de Melo chorava na cremação do seu amado junto a Sousa Falcão, as luzes eram pálidas e de um esbranquiçado muito extenso.
Esteticamente a peça tem uma fusão dos dois séculos, os figurinos são distintos entre a roupa da “PIDE” e os restantes actores. As casinhas em miniatura e iluminadas davam um estilo boémio ao cenário e conforto aos espectadores como se sentissem em casa."

Ana Checa

Crítica à peça FELIZMENTE HÁ LUAR

Questões: É uma boa peça? Está bem representada? Transmite "a ideia chave"? Vale a pena ser vista?
Esta obra foi realmente bem retratada e representada, transporta-nos até à época e transmite a intensidade das acções! Em termos cenográficos foi bem conseguida no geral, vista ao pormenor, deixa pontos a desejar!
Percebe-se facilmente a historia e a sua respectiva moral ou conclusão, deixando até um pouco o público entediado!
Se é uma boa peça é muito relativo (bom argumento, satisfatória produção), mas na minha opinião qualquer peça de teatro deve ser vista! Para alem do factor de respeito pelo trabalhador e artista, é extremamente necessário ter se visto más produções de espetáculos para sabermos identificar uma boa peça quando a virmos! Uma boa peça será sempre uma óptima peça, mas uma má peça será sempre um elogio a uma boa peça!

Susana Paixao 12ºF Nº23
 

Crítica à peça FELIZMENTE HÁ LUAR

"[...]

Esta peça é conduzida pelos princípios do teatro moderno (desenvolvidos por Brecht). A intenção é substituir o “sentir” por “pensar”,;para tal, é necessário haver uma distanciação histórica, isto é, o actor deve conseguir “afastar-se” da personagem e o espectador deve conseguir “afastar-se” da história narrada.
Esta técnica aproxima o actor e o espectador, de tal modo que ambos
se distanciam da história narrada, podendo assim, como pessoas reais, fazerem os respectivos juízos ou críticas de forma precisa e consciente sobre o que se passa em palco sem que as emoções trágicas ou dramáticas levadas ao extremo afectem o juízo de cada um.

O cenário presente nesta versão da peça foi minimalista, porém ilimitado, capaz de nos transportar mentalmente para os vários cenários mencionados na obra e assim permitindo-nos uma maior liberdade em “criar” e adaptar a história individualmente.

Pessoalmente, creio que, todo o ambiente criado naquele palco, com a ajuda das luzes e do som, e principalmente com a atitude dos actores, fizeram desta peça um espectáculo, até o silêncio presente em algumas partes ajudou bastante a criar o impacto pretendido em nós, espectadores. Apesar de ser a primeira vez que assisto à representação destes actores, penso que estiveram bem em palco. Recomendo fortemente assistir à peça Felizmente há luar! , pois tendo uma escrita simples ,é uma obra bastante acessível e interessante para todas as idades."
Irina Ivanenco 12ºF, Nº 13

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

FELIZMENTE HÁ LUAR




Inicialmente foi-nos apresentada uma introdução por Maria do Céu Guerra, sobre o contexto histórico e o autor da obra. Com esta introdução apercebemo-nos da época em que foi escrita, no século XX, precisamente em 1961, acontecendo nesta época diversos conflitos sociais e políticos protagonizados essencialmente pela oposição e o regime salazarista.
Com esta obra, Sttau Monteiro pretende mostrar à sociedade as dificuldades que Portugal passara, o medo do povo, que não tinha a coragem necessária para lutar pelos seus interesses, especialmente pela liberdade a que tinha direito. Esta falta de coragem originou muitos outros problemas para a população portuguesa, como a miséria, a falta de moral e os destinos traçados a que não conseguiam resistir.
Na minha opinião, esta peça foi bem apresentada pelos actores, nomeadamente, pela personagem de Matilde (mulher de Gomes freire de Andrade) e D. Miguel (primo de Gomes Freire).
Gomes freire, embora personagem ausente fisicamente, é o protagonista do desenrolar de toda a história, foi à sua volta que as peripécias aconteceram, pois sendo ele um homem considerado pelo povo como revolucionário, toda a oposição queria acabar com a sua existência.
Assim, as forças da oposição uniram-se, mas a Igreja defendida por Frei Diogo e a força militar regida por Beresford (homem calculista e oportunista) prenderam e mais tarde enforcaram o seu maior “inimigo”, Freire de Andrade. Nesta peça ainda temos oportunidade de ver o sofrimento de Matilde perante todas as injustiças contra com o seu querido marido e a sua luta pela liberdade, apesar de só ser apoiada por um amigo Sousa Falcão (símbolo de amizade e fidelidade), pois toda a população tinha medo do regime.
O nível cénico, inicialmente, causou-me um choque pela sua pequenez e simplicidade, pois as casas eram tão pequenas que parecia um mundo de crianças, mas, no mesmo instante, dois mendigos a volta de uma fogueira davam uma imagem forte da pobreza e crueldade em que as pessoas viviam.
No decorrer do espectáculo deparamos com vários aspectos, como a repartição da população por classes, muito bem conseguida através dos figurinos e da interpretação das personagens (modo de falar e estar).
A sonoplastia, muito boa, tanto a nível de ouvir os actores, pois a sala tinha boa acústica, como os sons que surgiam através de lançamento de pedras e vidros partidos, entre outros. O mesmo acontece a nível de luz, que incidia por vezes em personagens, o que aumentava a credibilidade e reforçava a presença destas.
No geral, achei uma encenação bem conseguida, mas penso que a introdução inicial foi um pouco excessiva o que tirou a atenção de vários espectadores. Em oposição, a cena transmitiu-nos a principal ideia do texto e do tempo correcto, sendo esse, na minha opinião, o principal objectivo.
Rita Duarte nº22
12ºF

Crítica à peça



Felizmente há Luar
Van Gogh

Sendo isto uma crítica minha e só minha, serei honesto. Naão gostei muito da peça, francamente desiludiu-me um pouco, e foi por eu já conhecer o livro e a história antes de ver a peça. Muitas das deixas foram cortadas para tornar o espectáculo mais curto e, como consequência, algumas falas perderam o sentido, por já não terem as outras para as completarem; achei as falas e as personagens do livro muito mais profundas e com significado que as do teatro. Cá por mim, não me importava nada de estar lá mais uma hora, se pudesse ver a história mais completa. Se aquele discurso antes da peça não tivesse sido tão longo, talvez houvesse tempo, mas, por outro lado, não fui eu que actuei, e actuar é um trabalho cansativo, o que me leva a ponderar que não estou em posição de criticar o trabalho alheio, se bem que, como alguém que pagou o seu bilhete e viu a peça, tenho o direito de pelo menos anotar algumas falhas que poderiam ser melhoradas.

Falando dos actores, não achei que a representação fosse muito boa: faltou-lhes alguma convicção e paixão. Principalmente, não gostei da representação feita de Vicente, foi a personagem que eu mais admirei no livro e a “fantasia” foi um pouco arruinada com a peça. Mas, em contraste, adorei as personagens do Berseford e de D. Miguel, gostei da maneira como foram representados, principalmente Beresford, com as suas falas inglesas que não estão no livro (um toque muito bom); de D. Miguel gostei do visual do personagem, parecia ter sido talhado para a sua personalidade, a sua maneira fria e pouco emocional de falar e agir. Destas personagens, posso dizer que fizeram a ida ao teatro valer a pena. Quanto aos outros personagens, não me chamaram muito a atenção ou não me cativaram. Embora admita que a actriz que fazia de Matilde de Melo  representava muito bem, não gosto muito de papeis muito dramáticos.



Quanto aos outros elementos, como o cenário e os efeito de luzes e som, tenho opiniões distintas. Acho que os cenário não estava grande coisa. O painel no fundo de facto era bonito e ajudava com os efeitos de sombra, que também achei muito bons e que acentuavam as personagens muito bem, principalmente Beresford, o Principal Sousa e D. Miguel, perto do fim do 1º acto. Mas aquelas “casinhas” minúsculas espalhadas no palco uma tentativa muito fraquinha de recriar o ambiente (a não ser que o objectivo deles fosse outro), mais valia terem montado um cenário ou elementos de cenário (mesmo que fossem em cartão) para dar um outro sentimento e um maior realismo ao meio ambiente. Quanto ao som, achei que estava bom, mas no livro imaginei o som dos tambores como algo diferente, mais assustador e militar, e o som das outras pessoas de uma outra escola a falarem muito alto, ao fundo, no final do 1º acto,  ao ponto em que já não conseguirmos ouvir bem o que os personagemns diziam, forçando-os a levantar a voz e a parecer que estavam todos apenas a gritar, mas sem nenhum sentimento ou efeito, foi só mesmo barulho que atingiu o ouvido mas não conseguiu chegar “mais longe”.


Emfim, esta é a minha opinião sobre a peça. Se fosse mesmo um crítico, com criticas escritas em livros e revistas, dava uma pontuação um pouco fraca à peça em geral, mas aclamando alguns dos elementos individuais da peça.
[...]


André Matias

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Crítica de Teatro


John Atkinson Grimshaw

Felizmente há Luar, Luís de Sttau Monteiro


Encontrava-me na última fila das bancadas cercada por zumbidos, risinhos e conversas paralelas quando uma voz de tom irado rompeu as cortinas e barricou todas as outras sonoridades, alegando estranheza ao não ter sido recebida por um imediato aplauso. Foi Maria do Céu Guerra quem subiu ao palco e nos introduziu num movimento liberal oitocentista, evidenciando o paralelismo entre este ambiente de conspiração (1817) e a opressão condicionada pela ditadura de Salazar (1961 - época em que a censura perseguiu a peça de Sttau Monteiro). 
A encenação de Helder Costa foi então precedida por uma expansiva explicação da peça e do teatro em geral. O público era formado apenas pelo corpo estudantil e, como tal, o principal objectivo não podia fugir à aprendizagem, mas a dimensão que a inicial abordagem tomou, proporcionou uma ideia de crítica ao próprio trabalho – “não seria a peça enredo suficiente?”.

As luzes apagaram-se. As cortinas abriram-se. E, no palco, estavam apenas umas pequenas casas, dispostas frente-a-frente, criando a ilusão de ruelas lisboetas. Este foi o cenário principal ao longo de toda a peça. Por vezes, sofreu ligeiras invasões de objectos, numa ou noutra cena, mas “Lisboa para Bonecas” não se alterou e possibilitou aos actores rápidos passeios pela cidade.
A cenografia minimalista foi contrastada por poderosas presenças em palco como Maria do Céu Guerra e João D’Ávila que provaram que um “actor deve trabalhar a vida inteira (…) e nunca renunciar este objectivo principal: amar a sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo” – Constantin Stanislavski.
No entanto, todo o elenco (Adérito Lopes, Jorge Gomes Ribeiro, Pedro Borges, Rita Fernandes, Ruben Garcia, Sérgio Moras e Vânia Naia) vestiu as respectivas personagens de forma exemplar, traduzindo a interpretação de Helder Costa, claramente fiel aos objectivos de Sttau Monteiro.

 “Eu sou um homem de teatro concreto, real, de palco. Para mim, o teatro surge quando está no palco, quando estabelece uma relação social, concreta, num povo e num grupo. O livro meramente, ou o texto, tem para mim muito pouco significado, apesar de eu ser um autor teatral. (…) Se vocês são o teatro do futuro, eu sou o do passado. Eu sou um homem para quem só conta o espectáculo.” – Sttau Monteiro.

A peça começa como o crescer de uma avalancha: num ambiente de intrigas e denúncias, existe um povo faminto por lutar, fazendo prevalecer os ideais de Gomes Freire de Andrade, um general amigo da população que acaba detido. Esta situação alimenta o descontentamento da plebe e o desejo de revolta, obrigando a polícia a cair sobre os civis (como a PIDE caiu sobre o Luís de Sttau Monteiro). A esposa do General, Matilde (papel de Maria do Céu Guerra), veste uma capa de coragem e assume uma voz de consciência sobre a injustiça humana, tentando salvar aquele com quem partilhara tantas vivências.
O avançar na narração reduz a velocidade e o drama prevalece sobre o texto: as cenas tornam-se mais expressivas com as incisões de luz e os efeitos sonoros, e toda a representação se aproxima lentamente da fatalidade – a execução do herói.
No fim, a tragédia é embelezada pela ligação existente entre um acentuado luar, como imagem de fundo, um forte e incisivo foco de luz e um grito ( – “Felizmente há luar!”) de Matilde, para quem a imagem (cenário descrito pela actriz) das labaredas a dançarem com o esposo, será para sempre o clarão que “há-de incendiar a terra e abrir as almas”.
Durante todo o espectáculo foi notória a linha teatral de Brecht, ou seja, o facto do actor despir o objectivo de representar e transmitir a necessidade de relatar o real, transformou a peça numa "afronta".
Sentada, senti-me presa e acorrentada, e percebi que este sentimento não era nada se não uma inutilidade. O espectáculo provoca-nos, força-nos a querer reagir, pois sentada naquela cadeira, naquela última fila, vi-me forçada a esquecer o meu papel enquanto espectadora e a vestir a pele de uma personagem enquanto cidadã. O desejo de luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição que consumiu uma imensidão de pensamentos durante o movimento liberal oitocentista em Portugal, que fez fervilhar o sangue de tantos reclusos na ditadura nos anos 60 do século XX, invadiu também a minha presença enquanto observadora e destruiu-a.
O fascínio do teatro está na aprendizagem, na percepção de como o “antes” influenciou o “agora”. Mas o prazer desta aprendizagem está nas entrelinhas, está na capacidade de descoberta, está no percurso. Explicar a mensagem antes da experiência é matar um bocadinho da magia que reside obrigatoriamente num mundo de espectáculo, por isso pergunto uma vez mais:
 – Não seria a peça enredo suficiente?
 – Era.


Mariana Fonseca nº19 12ºF